LEITURA - Do compulsório ao hábito



“O processo de humanizar requer o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a capacidade de penetrar nos problemas da vida...” (Antonio Candido)

Tornar sistemático o hábito da leitura é, indubitavelmente, desafio dos mais relevantes. Deve começar com o incentivo familiar, consolidar e ser ampliado nos diferentes espaços de educação formal. Nesses, o desafio é fazer da leitura obrigatória, estabelecida para o cumprimento do conteúdo curricular, relacionados com o roteiro dos vestibulares e do Enem – Exame Nacional do Ensino Médio, um hábito de vida, ultrapassando os limites do compulsório para um prazeroso hábito. O número de leitores, no Brasil, apresentou tímido crescimento. Segundo pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada ano passado, 56% da população brasileira são leitores. A mesma pesquisa em edição anterior levantou que esse índice era de 50%. Mesmo com o pequeno avanço, indica ainda que o brasileiro lê apenas 4,96 livros por ano – sendo que 0,94 são indicados pela escola e 2,88 lidos por vontade própria. Do total de livros lidos, 2,43 tiveram leitura finalizada e 2,53 com leitura parcial. A média anterior era de 4 livros lidos por ano.

O levantamento, realizado pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) foi encomendado pelo Instituto Pró-Livro, associado com várias organizações. O universo pesquisado é de 5.012 pessoas, alfabetizadas ou não, projetando 93% da população brasileira, na amostra.

A pesquisa considerou como leitor aqueles que leram, total ou em parte, um livro nos três meses anteriores. Entre os pesquisados, 33% tiveram alguma influência para a leitura. A mãe, ou representante do sexo feminino, foi a principal responsável (11%), seguida pelo professor (7%). O ambiente familiar e o espaço escolar têm, portanto, forte influência no incentivo à leitura. Entre muitos outros dados o levantamento revelou que a leitura posiciona-se em 10º lugar quando a questão é sobre o que gosta de fazer no tempo livre. Bem atrás do ato de assistir televisão (73%).

A Escola deve ter papel protagonista para o cumprimento formal do seu papel, deve tornar a leitura um hábito prazeroso e com sentido, ultrapassando assim os limites da mera obrigatoriedade que traz um negativo sentido utilitário.

E o desafio é incorporar o que está preconizado na LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de formar o cidadão pleno, que saiba olhar o mundo à sua volta de forma crítica para agir e interagir com os desafios da realidade individual e social. O incentivo à leitura, que tem no ensino de literatura parte do currículo na educação básica, um relevante respaldo, precisa sempre contar com incentivo nas políticas educacionais, nos planos pedagógicos, nas famílias. Enfim, fazer parte da vida.

O hábito precisa começar a ser construído na família. Muitas vezes o contato sistemático com a boa literatura inicia-se no período escolar formal. Dois são os desafios para o conjunto dos professores, especialmente os que atuam no campo da linguagem. Ir além do formato burocrático que pode impor roteiro programático meramente ritualístico. E na ainda distante garantia do direito a um ensino de qualidade, que disponibilize aos alunos literatura de qualidade, relacionando-a com a vida, a leitura faz diferença. Traz melhor compreensão da sociedade e suas complexidades, estimula o espirito crítico, corroborando para uma formação humana que prepare o indivíduo e o cidadão para as especificidades dessa sociedade, na respectiva ação profissional e alcançando os múltiplos aspectos da convivência. A escola, então, deve ter como objetivo levar o aluno a desenvolver uma leitura crítica da realidade. Interpretar um texto com trocas de experiências é questão de peso e deve ir além do restringir-se ao contato aligeirado com os textos. Discutir e interpretar um texto, abrindo espaço para a diversidade de experiências e ações, resultando na formação um leitor atento e motivado e consolidar nele o hábito da leitura.

Para Antônio Candido, grande pensador brasileiro, recentemente falecido, pesquisador e militante ímpar dos direitos humanos, “a Literatura deve ser encarada como um direito do ser humano.” Um direito básico e fundamental. E, para que esse direito seja efetivo, provocando reflexões e inquietações diante da existência, é preciso ampliar a quantidade de leitores. Que tenham o hábito efetivo de apropriar-se do texto, do livro. E para isso, em diversos espaços, sobretudo na escola, é preciso caminhar do sentido obrigatório da leitura para um hábito. Que faça parte da vida.

Artigo publicado no jornal Correio Popular - Campinas - 03/06/2017
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